A  última e grande aventura de 2011 - Sr.ª da Graça/serra do Alvão (30 de Dezembro de 2011)

Quando olhamos à nossa volta para os montes e vales que nos rodeiam, vem-nos à memória os fantásticos momentos vividos a pedalar a sós, ou com amigos de variadíssimos lugares que nos têm visitado.

A época de pedaladas este ano começou um pouco tarde para o que é habitual e, porque a saudade de alguns empenos já se estava a esvair, nada melhor que começar no último mês do ano (e que mês… 280Kms e 7700m de acumulado de subida em quatro saídas) a “esticar um pouco a corda” em relação ao que vinha sendo normal anteriormente nestes passeios BTT.  A reação foi bastante positiva e claro está, numa conversa no passeio do dia da consoada, veio à ideia de fazer uma coisa que se ajustasse ao dia inteiro.

Onde vai ser…? Sr.ª da Graça – monte farinha, em Mondim de Basto!!!

Há 2/3 anos a esta parte, os amigos de Tourencinho tinham-nos convidado para os acompanharmos no último dia do ano, isto porque era para eles habitual fazer-se este passeio, mas, as condições climatéricas (Serra do Alvão coberta de neve) impediu-nos de o fazer.

Então pensámos; é desta vez que o vamos fazer.

Durante o passeio de consoada, aquando do café na localidade de Lagoa, lançámos o desafio ao Manuel que, como quem está à espera de ouvir algo agradável, prontamente ganhou outro alento para o resto do dia e começou a olhar para o trabalho/agenda”…sexta, sábado…hum…sábado era porreiro o trabalho aperta menos…quanto Kms dá isso?”, dizia imaginando a coisa…

Bom, como esta época é propícia a, de um momento para o outro, termos umas “quebras” a nível de saúde, na 4ª feira recebemos um telefonema a dar conta da indisponibilidade dele porque estava com um estado gripal que o impedia de tal aventura…

Não temos mais nada em que pensar e, vamos lá sexta, dia 30 porque as previsões meteorológicas dão tempo pior para sábado e claro, para fazer o percurso com mau tempo não!

No aconchego da lareira, abrem-se alguns tracks da zona e riscam-se alternativas. Conversas com alguns amigos, dão conta que no cimo do Alvão há um novo estradão que dá acesso a um recém criado parque eólico entre a localidade de Bobal e Macieira.

Assim foi, dia 30 de dezembro, dois aventureiros metem-se ao caminho e, mesmo assim, ainda desafiam um recém-chegado às lides para pedalar na parte inicial connosco. O Edgar que anda cheio de vício… da próxima vez, cá para nós, faz o percurso todo.

Ao levantar, da janela avistam-se ao longe, cada vez menos intensos devido à distância, pequenos pontos vermelhos de sinalética intermitente ao longo dos vários parques eólicos. Aquele era um dos longínquos locais de passagem, pensava-se…8 horas da manhã foto da praxe antes da saída para o grande dia, com o amigo Edgar que, pela primeira vez pedala acompanhado.

 

A saída de Vila Pouca de Aguiar fez-se pela EN 206 para que o aquecimento pudesse ser feito gradualmente. Aquecimento bem necessário pois, mal entrámos nos trilhos que nos conduziram a Gouvães da Serra verificámos que o gelo era uma constante, quer pelos dedos enregelados, quer pela paisagem que estava coberta de uma manto de gelo.

Nas proximidades de Gouvães, o manípulo do Zé deixou de desmultiplicar as velocidades, pensa-se logo numa avaria e em tudo a perder….mas não, tal era o frio, que o cabo/sistema ficou gelado. Após uma ou outra insistência a coisa começou a funcionar.

O traçado que seguíamos, aparentemente caminho publico, leva-nos a um local vedado por alguém que se julga dono daquelas terras, aliás, naquela zona já nos aconteceu isso mais que uma vez…aqui perdem-se uns minutos para dar a volta à coisa e retomar o percurso mais à frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Da localidade de Gouvães até ao parque eólico que nos haviam falado, fizemos o percurso que foi aberto propositadamente para a instalação dos aerogeradores. Ainda que ligeiramente, fomos subindo em termos altimétricos ao longo do Alvão. Dali começava-se a ter uma panorâmica muito agradável do vale de Aguiar do lado esquerdo e, do lado oposto, a serra despida de vegetação, rude, com afloramento graníticos a descoberto que durante alguns momentos fazem lembrar uma superfície lunar…é deselegante, mas ao mesmo tempo única…pena é que não esteja plantada de densa mata e que, alguns energúmenos lhe lancem o fogo durante a época de verão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Km 27, avista-se o objetivo; Monte farinha lá em baixo, ali tão perto aparentemente, mas ainda a 20 Kms. Neste momento o Edgar decide-se porque ainda ponderou fazer o percurso connosco, no entanto, numa ponderação ajustada à realidade, decide-se e volta ao local de partida. Faz-nos uma foto e, o aperto de mão com os votos de bom regresso são dados.

 

 

 

Dali para a frente estamos os dois. Descemos o parque eólico e o caminho termina… lá ao fundo, viam-se vestígios de um caminho junto a uma linha de água. A solução era descer monte abaixo até lá, e assim foi. Daí descemos pelo dito caminho que nos levaria à estrada que nos levaria a Macieira. Em casa, o trilho parecia-nos bem mais suave, mas não, foi muito agressivo, não passava lá ninguém a não ser uns rebanhos de cabras e uns loucos de bicicleta, devem ter pensado uns trabalhadores da floresta que nos viram sair do mesmo na estrada. Foram necessários braços e muita concentração para ultrapassar toda aquela rudeza.

 

 

 

Em Macieira fizemos a primeira paragem para abastecimento sólido/liquido a fim de “atacar” o monte farinha. Daí para a frente seguimos o percurso traçado pela malta de Tourencinho com um ou outra variante. Muito bonito este percurso por entre locais de extrema beleza natural e uma floresta muito bem conservada.

 

 

 

 

 

A cerca de 6/7 Kms da Sr.ª da Graça o track que seguíamos começa a dar alguns problemas, (as configurações do gps não estavam ajustadas para os 10.000 pontos) mas nada que um telefonema não resolvesse a situação e, por volta das 12h chegámos à Sr.ª da Graça. Quem habitualmente faz isso no verão, fica, num dia destes, com a sensação de leveza, paz e serenidade porque lá no cimo não se passava nada aquela hora. As vistas são de cortar a respiração e, quando olhamos para o Alvão novamente…bem… procuram-se forças para o alcançarmos de regresso a casa, sabendo de antemão que teríamos de descer à cota dos 250 metros. Mas não estávamos sós naquele local e, a força divina da Senhora ajudou-nos na aventura.

 

 

 

A saída do monte farinha fez-se por estrada até à proximidade da fonte, onde, entrámos novamente no trilho que nos levaria ao rio olo. Depois de entrar no caminho, questionámo-nos se seria por ali, o gps dizia que sim e não havia remédio. Durante cerca de 2 Kms tivemos de andar com as bicicletas à mão por baixo de densa mata de giestas que cobriam completamente o caminho, até que, bastantes metros à frente se avistava um outro caminho mais limpo…aqui perdera-se muito tempo que poderia fazer falta para o final da tarde.

 

 

 

A descida para o rio fez-se a grande velocidade e rapidamente lá chegámos, assim que acabaram as giestas…aqui alivia-se alguma roupa e olha-se, pensa-se e imagina-se a ascensão ao Alvão, sabendo que tínhamos pela frente uma dura ascensão com mais de 1000m de acumulado.

 

 

 

 

 

Desde aí, a primeira paragem fez-se nas proximidades das fisgas de Ermelo.

Depois da visita e foto nas fisgas, mais uma subida, com alguma pedra solta à mistura para apimentar ainda mais a coisa, já dentro do parque natural do Alvão.

 

 

 

As reservas de água começam a escassear e é na localidade de Barreiro que, um jovem à janela nos faz gestos de alento. Do lado de fora e em cima das bicicletas, mostramos-lhe o bidon da água vazio e questionamos se nos podia dar água…rapidamente vai chamar a mãe que prontamente nos faculta a mangueira do jardim com água enregelada, aliás, a senhora avisou, “olhem que é muito fria” e de facto era, não apetecia beber, o sol já não aquecia tanto e a tarde ia caindo.

 

Do cimo dessa localidade seguimos em direção a Lamas d’Olo, retomando o traçado por entre caminhos que nos davam de vista o alto da Serra, já se avistava a grua que estaria num dos locais onde teríamos de passar, “…é já ali…”…Em Lamas d’ Olo aspirava-se um cafezito aberto para comer uma sande que vinha a pesar no camelback e beber uma coca-cola…à entrada, um senhor que vinha de buscar o gado dizia-nos: “aí essa casa branca à direita”…que alegria!

Hora do lanche para retemperar energias e acabar a coisa lá no cimo. Como a senhora do café nos viu com cara de valentes, nada melhor que fazer o troco de uma nota de 10€ em moedas de cinquenta cêntimos !!! Toca a carregar um monte de moedas para casa…para ajudar à coisa…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Daí rumámos à barragem do Alvão (barragem cimeira) e, à esquerda, tínhamos o caminho que nos conduziria ao ponto mais alto deste percurso, 1337 metros. Olhava-se para o gps e o mesmo marcava 75 Kms… por estimativa, o total do percurso deveria chegar aos 110Kms, então, pensa-se na gestão de esfoço e na abordagem ao marco geodésico com juizinho…o sol do dia fez com que parte do gelo do caminho derretesse e tornava-se mais difícil o pedalar, a lama agarrava-se aos pneus o que dificultava e endurecia ainda mais a coisa. Eis-nos no cimo com um vento gelado e logo procurámos abrigar-nos por detrás de uma parede de um retransmissor de rádio. Do geodésico avistava-se Vila Real e uma quantidade de localidades a longa distância. A tarde caía rápido e não se podia demorar muito tempo ali. Um telefonema da família questionava a nossa posição geográfica e claro, prontamente se tranquilizou a malta e se respondeu que a missão estaria quase acabada, se bem que ainda nos faltavam 25 Kms… mas rapidamente se fariam atendendo a que se descia, contrariamente aos últimos 25 Kms que tinham ficado para trás.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Daí até anoitecer foi um instante, os largos estradões do parque eólico fizeram-se a grande velocidade, o que nos arrefeceu por completo, ao ponto de nos enregelar mãos e pés. Antes da descida para a localidade de Pontido fizemos a primeira paragem para colocar luzes pois, a exigência do trilho e a pouca luminosidade assim o obrigava.

Depois de atravessar a EN 2 entrámos na ciclovia, em pior estado desde que lá tínhamos passado no dia da consoada, muito por culpa dos veículos agrícolas que por ali circulam que, com a chuva e humidade a estão a tornar bastante lamacenta e daí até ao ponto de partida, ao qual chegámos por volta das 18h, foi um instante…o GPS à chegada marcava 106Kms e cerca de 3000m de acumulado de subida.

 

 

Grande dia de pedaladas este…! Trouxe-nos à memória os 211 Kms entre Vila Pouca de Aguiar e o Alto da Torre na Serra da Estrela, numa outra aventura em bicicleta de estrada há cerca de 3 anos, num quente dia de Julho…

Fica para a memória a maior aventura de BTT desde que andamos nestas lides e esperamos repeti-la para a primavera, já com novas variantes que entretanto verificámos na companhia de alguns colegas que já manifestaram interesse em fazer este passeio…